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A gorjeta no restaurante: valor habitual, gorjeta paga com cartão e isenção

Quanto deixar de gorjeta, o que diz a lei, a isenção de contribuições sociais e como receber gorjetas pagas com cartão.

O que é uma gorjeta e de onde vem a palavra?

Uma gorjeta é uma quantia em dinheiro entregue voluntariamente pelo cliente, para além da conta, para recompensar a qualidade do serviço. Não é o preço de uma prestação. É um extra, deixado ao critério de quem paga.

A palavra vem de «gorja», a garganta: era o dinheiro dado a quem servia para que pudesse beber um copo. Em francês, a expressão do século XVIII era «pour boire», ou seja, «para beber», e as duas palavras acabaram por se juntar. A ideia inicial continua a ler-se hoje: uma pequena quantia, entregue em mão, sem qualquer obrigação.

Gorjeta, serviço e conta: três coisas diferentes

O serviço corresponde ao trabalho de sala, já incluído no preço dos pratos. A conta é o total. A gorjeta vem depois, à parte. Muitos clientes continuam a confundir as três coisas, o que explica a pergunta que surge sem parar na sala: deve-se deixar gorjeta quando o serviço já está incluído?

Em França, a resposta cabe numa frase: nada o obriga, mas o costume existe. No setor da restauração, esta zona cinzenta é antiga. E ganhou novos contornos desde que os clientes deixaram de andar com dinheiro vivo.

O que diz a lei sobre as gorjetas em França?

O serviço está incluído nos preços afixados

Desde 1987, os preços afixados em cafés e restaurantes são preços líquidos. O serviço incluído é a regra: nenhuma percentagem adicional pode ser acrescentada de forma automática à conta. Um estabelecimento que faturasse um «serviço» à parte, para além do preço afixado, estaria a infringir as regras de afixação de preços.

Consequência direta: nenhuma gorjeta é obrigatória em França, seja qual for o tipo de mesa. Um cliente pode não dar gorjeta sem cometer a mínima falta. Recusá-la ou comentá-la na sala é um erro comercial.

O artigo L3244-1 do Código do Trabalho

A lei regula, isso sim, o destino do dinheiro depois de deixado. O artigo L3244-1 do Código do Trabalho é claro: as gorjetas entregues ao empregador, ou por ele centralizadas, devem ser entregues na íntegra ao pessoal em contacto direto com a clientela. Não podem ficar na caixa do estabelecimento.

Por outras palavras, o patrão não pode ficar com as gorjetas. Também não as pode usar para completar um salário mínimo, nem descontá-las da remuneração devida. São quantias que pertencem aos trabalhadores da sala.

A isenção sobre as gorjetas: onde estamos?

Para apoiar a contratação, a Lei de Finanças para 2022 criou uma isenção temporária. As gorjetas entregues aos trabalhadores em contacto direto com a clientela ficavam livres de imposto sobre o rendimento, de CSG-CRDS e de contribuições sociais, desde que a remuneração de base fosse inferior a 1,6 SMIC. O regime abrangia tanto o dinheiro vivo como a gorjeta paga com cartão.

Este regime foi sendo prorrogado ano após ano pelas sucessivas leis de finanças, até 2025. Não é permanente. Antes de anunciar seja o que for às suas equipas ou ao seu gabinete de contabilidade, confirme a redação em vigor para o exercício em curso: a prorrogação joga-se no final de cada ano e, sem ela, estas quantias passam automaticamente a ser tratadas como salário normal, com encargos.

Quanto deixar no restaurante? Os valores habituais

Não existe qualquer tabela oficial. Existem ordens de grandeza, observadas na profissão. Variam sobretudo consoante o tipo de estabelecimento e a duração da refeição.

  • Café, cervejaria, serviço rápido: deixar algumas moedas, ou arredondar a conta.
  • Restaurante tradicional: 5 % do valor total, um pouco mais se a refeição se prolongou.
  • Restaurante gastronómico ou com estrela: 5 a 10 %, tendo em conta o trabalho do escanção e do chefe de mesa.
  • Mesa grande ou evento em exclusividade: de 10 % a um valor fixo acordado à partida.

Estas referências dizem respeito a França. Um cliente de passagem por Paris deixa geralmente um pouco mais do que na província, porque a clientela internacional trouxe para lá os seus próprios hábitos. Continua a ser um costume, nunca uma regra.

Do lado da sala, a pergunta «quanto se pode receber?» não tem limite legal. Num serviço cheio, um empregado experiente arrecada habitualmente o equivalente a algumas dezenas de euros por noite num estabelecimento tradicional. O número depende do ticket médio, da afluência e, cada vez mais, do meio de pagamento proposto.

A gorjeta com cartão bancário: o verdadeiro tema do momento

É aqui que o assunto mudou. O pagamento com cartão bancário e por telemóvel domina hoje a conta no restaurante. Quando o cliente já não traz uma moeda no bolso, não deixa nada, mesmo satisfeito. Não é falta de vontade: é um problema mecânico.

Desde que os nossos clientes pagam tudo por contactless, a taça no balcão está vazia. A gorjeta não desapareceu; o que desapareceu foi a forma de a dar.

Existem hoje três soluções para recuperar estas quantias.

O terminal de pagamento com pedido de gorjeta

A maioria dos terminais recentes permite mostrar um ecrã de escolha antes da validação: valor fixo, percentagem, ou não obrigado. É eficaz e imediato. O ponto de atenção está na configuração contabilística: o sistema deve separar a gorjeta do volume de negócios, caso contrário está a cobrar IVA sobre uma quantia que não lhe pertence.

O mealheiro por QR code

Um QR code colocado na mesa, na conta ou no balcão remete para uma página de pagamento dedicada. O cliente escolhe o valor, confirma, e está feito em dez segundos. A vantagem é separar a gorjeta do pagamento da refeição e poder atribuí-la a uma pessoa ou à equipa. Se já implementou uma carta digital para o seu restaurante, o suporte já existe e o acréscimo não custa nada em equipamento.

O dinheiro vivo, que não desaparece

Continua a ser a forma mais simples, sem comissão nem rastreio complicado. Mantém um peso significativo nas gorjetas dos almoços e nas zonas turísticas. Guarde a taça, mas deixe de contar só com ela.

A repartição das gorjetas entre trabalhadores

Uma vez recolhido o dinheiro, a repartição torna-se um assunto de equipa. Dominam dois sistemas no setor.

O primeiro é a gorjeta pessoal: cada um fica com o que recebeu nas suas mesas. Recompensa o desempenho individual, mas cria desigualdades entre praças e ignora por completo a cozinha e a copa.

O segundo é o fundo comum, muitas vezes chamado «tronco». Todas as quantias são juntas e depois repartidas segundo um critério conhecido por todos: proporcional às horas trabalhadas, por pontos de função, ou em partes iguais. É o modelo mais frequente nos estabelecimentos organizados, e o mais saudável quando o serviço assenta numa brigada.

Quem trata desta repartição? Na prática, o responsável de sala ou o gerente. Nada o impede, desde que não fique com nada pelo caminho e torne o critério de cálculo transparente. Escreva-o, afixe-o na copa, aplique-o na mesma data todos os meses. Os conflitos sobre gorjetas nascem quase sempre de uma regra pouco clara, nunca do valor.

A gorjeta noutros países: Itália, Espanha, Estados Unidos

Os costumes mudam radicalmente de país para país. Alguns países encaram a gorjeta como parte da remuneração, outros como um simples gesto. O quadro abaixo dá as referências mais úteis para clientes em viagem e para as suas equipas que recebem turistas.

PaísPrática correnteForma habitual
França5 a 10 %, facultativaDinheiro, cartão ou QR code, serviço incluído no preço
ItáliaRara, muitas vezes nula«Coperto» de 1 a 3 € já lançado na conta
Espanha5 a 10 % nas grandes cidadesArredondamento deixado na mesa, sobretudo em dinheiro
Alemanha5 a 10 %Valor indicado ao empregado no momento de pagar
Portugal5 a 10 %Arredondamento, geralmente em moedas
Estados Unidos15 a 20 %, quase obrigatóriaLinha «tip» acrescentada no talão do cartão

Nos Estados Unidos, a gorjeta completa um salário-base legalmente reduzido. Não deixar tip é ali entendido como uma sanção. Em Marrocos, conte com cerca de 10 % num restaurante turístico. Em Itália, insistir em acrescentar uma gorjeta pode até deixar o pessoal desconfortável.

Os hábitos variam também dentro do mesmo país. Barcelona não funciona como uma aldeia da Andaluzia, nem Milão como Nápoles. A referência mais fiável continua a ser observar a mesa do lado. Um cliente que decide não deixar gorjeta na Europa não comete qualquer indelicadeza, desde que pague a totalidade da conta.

Como receber mais gorjetas na sala

A gorjeta recompensa uma experiência, não apenas um prato. Algumas alavancas têm efeito mensurável e nenhuma exige investimento pesado.

  • Apresentar-se pelo primeiro nome no início da refeição: a relação pessoal aumenta claramente os valores deixados.
  • Voltar uma vez a meio da refeição, sem forçar, para confirmar que está tudo bem.
  • Levar a conta sem demora e indicar com clareza a forma de deixar gorjeta.
  • Cuidar do final da refeição: é a última recordação que despoleta o gesto.

A alavanca mais rentável é, no entanto, técnica: tornar o gesto possível. Um cliente que paga com cartão e a quem ninguém propõe nada não deixa nada. Mostrar um pedido de gorjeta no terminal, ou um QR code no porta-contas, chega para recuperar parte do que se perdia. Numa casa de gama alta, com ticket médio elevado, a diferença conta-se depressa em centenas de euros por mês para a brigada: é um ponto a integrar logo na conceção de um menu QR code num restaurante gastronómico.

Último conselho, válido para todos: fale com a equipa antes de mudar seja o que for. A passagem da taça para o digital altera a repartição real entre funções. Uma decisão anunciada é aceite; uma decisão imposta faz sair os melhores empregados de mesa. E se aproveitar para digitalizar a sala, trate a questão da gorjeta ao mesmo tempo que a do menu acessível por QR code, e não seis meses depois.

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